
Spike Jonze, que assina roteiro e direção de Where the Wild Things Are, conseguiu criar uma obra tão subjetiva que dividiu a audiência entre os que amaram as metáforas da história e os que odiaram a confusão do enredo. A bem da verdade, o longa não é um filme infantil, mas sobre a infância. E o melhor de tudo está no fato de que os personagens são criados de modo tão fantasioso e profundo que somente uma análise mais atenciosa do espectador consegue perceber as entrelinhas e nuances do plot. O filme é uma adaptação do livro homônimo escrito por Maurice Sendak e narra as aventuras de Max, um garoto de forte personalidade que foge de casa após uma briga com a mãe e acaba penetrado em seu mundo imaginário: uma misteriosa e vasta floresta conhecida como Wild Things. O longa tem trilha sonora simples e discreta (embora goste do indie rock e alternativo) e sua fotografia é sóbria, algumas vezes bem escura criando uma atmosfera de introspecção e calma. Max é um garoto com uma personalidade e imaginação complexa como qualquer criança e ao enfrentar seus problemas e medos concretiza seus sentimentos, antes abstratos, na forma de monstros. Os monstros aqui ganham outra conotação. São na verdade arquétipos e modelos criados como forma de explicar o que se passa na cabeça de Max num momento de crise. São aplicados conceitos de Freud e Jung e embora as interpretações sobre cada um dos monstros seja distinta e pessoal, pode-se compreender Carol como seu pai e KW como sua mãe. Aliás a metáfora torna-se mais sólida quando Max, com medo de Carol foge pela floresta, encontra KW e ela oferece proteção. O garoto então entra dentro da boca dela e vai para dentro de sua barriga (ventre) numa analogia a própria gestação. Max então ouve Carol aproximar-se e discutir com KW que depois retira Max completamente sujo como em um parto. A interpretação remete inclusive às próprias discussões do casal e como o garoto entendia isso. Quando ainda em casa, antes da fuga de Max, Spike Jonze trabalha a relação do menino e sua mãe de modo sensível. Aliás a cena em que ela está com problemas no trabalho e ele a faz sorrir, imita um robô, faz carinho no pé dela deitado no chão, são de uma sutileza muito grande. Todos os monstros são na verdade a encarnação dos sentimentos de Max, ora mais agressivo e ciumento, ora solitário e carente. O filme tem uma história simples e de longe pretensiosa. É na verdade exigente porque demanda concentração, visão menos superficial e instrospecção da audiência. É também um belíssima e conceitual obra, que em alguns momentos mais simples e neutros consegue arrancar um suspiro ou choro da platéia, faz recordar de nossa família e sobretudo nossa infância, marcada por traumas, medos, fobias e tristezas, mas muitas aventuras, aprendizado e esperança. Creio que Jonze foi muito feliz em suas escolhas no projeto e conseguiu executá-lo com bom gosto. Eu particularmente faço parte da audiência que conseguiu-se identificar com o filme de modo peculiar. Gosto dos momentos mais tristes, densos e profundos do filmes, embora estes mesmos momentos pareçam vazios e sem rumo para algumas pessoas.
2 comentários:
Perfeito e só. Tchau
Marian, acho que poucas pessoas concordam com a gente.
Postar um comentário